Os números sobre o trânsito brasileiro andam preocupantes. No último ranking da OMS (Organização Mundial da Saúde), o país ficou em 56º como trânsito que mais mata no mundo, e em 4ª na América Latina, perdendo para República Dominicana, Belize e Venezuela. A média destes países é de 23,4 mil mortes por ano para cada 100 mil habitantes. Em 2010, éramos o 33º no mundo e 5º na América Latina.

Em números brasileiros absolutos, são mais de 40 mil mortes/ano e mais de meio milhão de pessoas com invalidez permanente, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Na comparação com os EUA, onde a frota é quase quatro vezes maior, o Brasil apresenta 35% mais mortes no trânsito.

Embora, de maneira geral, a OMS considere que Brasil tem uma legislação de trânsito adequada, o país tem problemas com implantação e fiscalização das leis, e a falha humana ainda é o maior fator de risco. No Estado de São Paulo, 94% das mortes no trânsito estão relacionadas com imprudência e desrespeito às leis; 80% dos acidentes com o uso do celular no volante e 90% com excesso de velocidade. Uma pesquisa realizada pela USP (Universidade de São Paulo) mostrou que do total de vítimas fatais no trânsito da capital paulista, 42% haviam consumido bebida alcoólica horas antes. Outra pesquisa, realizada pela Arteris, concessionária de rodovias brasileiras, apontou dados sobre o comportamento de motoristas. Do total de entrevistados, um em cada quatro admitiu dirigir depois de beber; uma em cada cinco pessoas têm histórico familiar de morte no trânsito; 51% usa celular ao volante; e 20% das mulheres se maquiam enquanto dirigem.

Para Emerson Feliciano, superintendente técnico do CESVI Brasil, é preciso tratar dos problemas brasileiros com foco em três pontos: metas rígidas para diminuição do número de acidentes, campanhas educacionais de impacto e adoção de políticas públicas eficientes. “A ONU espera reduzir em 50% o número de vítimas de acidentes/ano até o final da década. Para o Brasil, isso significa baixar em 20 mil – ainda é muito pouco, precisamos de índices fortes para implantar campanhas fortes. O brasileiro tem uma percepção muito baixa de risco no trânsito, diferente de outros países”, enfatiza.

Um ponto polêmico diz respeito à redução de velocidade nas cidades – recomendação da OMS, que considera seguras somente vias urbanas com limite de 50km/h. “Isso já acontece na Europa e de fato contribui para reduzir a gravidade das lesões por acidentes. Países com regras mais rígidas apresentam taxas muito menores de mortes no trânsito”, lembra Renato Campestrini, gerente técnico do Observatório Nacional de Segurança Viária. Um relatório divulgado pelo Escritório de Estatística da União Europeia mostrou que o número de vítimas fatais no trânsito caiu quase 60% em vinte anos. De 64 mil mortes/ano em 1995, o número passou para 26 mil, em 2015.

Aumentar o valor das multas também pode ser uma medida de impacto, mas deve ser acompanhada de fiscalização eficiente. ”O sistema público precisa de mais cobertura e mais capilaridade no monitoramento do trânsito. Não adianta elevar o valor das multas para determinados pontos e não ter fiscalização para outros. Para cada multa lavrada, cerca de outras três mil passam batido. A sensação de fiscalização é muito baixa nas vias e rodovias brasileiras”, avalia Campestrini.

Carlos Confort, coordenador Técnico do Centro de Competência de Produtos e Serviços do Proteste, dá ênfase ao investimento em educação. ”Precisamos mudar a cultura do brasileiro em relação ao trânsito. As multas e punições são importantes, mas precisamos de investimentos em educação. É uma questão de saúde pública. O Brasil gasta mais de R$ 56 bilhões/ano com acidentes de trânsito, valores que poderiam ser direcionados para outras áreas”, ressalta.

Para Flavio Tavares, conselheiro do Instituto Parar, as empresas e suas frotas podem exercer um papel importante na mudança de comportamento no trânsito.  “É possível investir em educação e tecnologia para frotas mais eficientes e seguras, e com isso, impactar a sociedade com resultados positivos”, ressalta. Um levantamento da Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo em 2014 mostrou que menos de 5% de condutores concentraram mais da metade de multas aplicadas. Do total de proprietários de veículos, 71% não haviam recebido multas naquele ano. “O comportamento de risco pode ser mapeado e ações podem ser implantadas para a redução desses riscos”, completa.

A Ticket Log, empresa nascida da união entre Ticket Car e Ecofrotas, que atua no segmento de gestão de despesas corporativas, entende a importância da conscientização do condutor na prevenção de acidentes. “A nossa empresa é responsável pelo gerenciamento da frota de mais de 27 mil empresas, isso significa mais de 1 milhão de veículos. Conscientizar o condutor que o papel dele vai além da direção é vital”, enfatiza Max Fernandes, diretor de Estratégia e Marketing da Ticket Log.

Educar, conscientizar e transformar são bandeiras que a empresa tem levantado para apoiar a mudança de atitude de condutores de todo o Brasil. “A gente acredita muito na ação individual, na mudança que começa em cada um e que impacta positivamente o coletivo”, ressalta. Para Fernandes, não há mais espaço para transferência de responsabilidades, é preciso que cada um assuma seu papel no todo e colabore para a mudança.

As empresas devem estar engajadas na redução de multas e acidentes da frota para repercutir essas ações para fora do ambiente empresarial. Empresas que investem em programas educativos e em tecnologia conseguem resultados efetivos na redução do número de multas e acidentes.

É o caso da Festo Brasil, que um ano após a implantação de ações e sistemas de telemetria obteve 15% de redução no número de multas. Já a PESA Cat conseguiu baixar em 39% o número de infrações também após um ano de investimento em ferramentas de gestão.

Com esse mesmo objetivo, a Singenta deverá implantar ações de gestão para melhor controle e educação da frota. “Lançaremos um projeto a partir de telemetria, que trará base punitiva e base de reconhecimento para os usuários. Precisamos ter as melhores conduções e os melhores comportamentos como exemplos a serem seguidos. Segurança é foco sempre”, enfatiza Mariana Costa, Coordenadora de Operações Comerciais.

A mudança de comportamento dos condutores ainda é uma das maiores barreiras enfrentadas pelas empresas. “O maior desafio é fazer com que os colaboradores tenham a noção de que estão em um ambiente que mata, assim como guerras ou doenças como o câncer. A questão é mais cultural”, enfatiza Harlen Braga, Gestor de Frota da Emive Segurança Eletrônica.

Para André Leitão, Gerente de Segurança Patrimonial e Frotas do Aché Laboratórios Farmacêuticos, essa é a principal dificuldade em gestão. “Obtivemos resultados positivos de um trabalho de gestão consciente voltado para os condutores. Porém, ainda há resistência na implantação de procedimentos de frota”, avalia.

O investimento em treinamento e educação são ações fundamentais para quebrar essas barreiras. Luciano Burti, ex-piloto de F1, lembra que os motoristas estão no centro da questão prevenção. “O treinamento e a reciclagem precisam devem ser constantes. Está comprovado que a grande maioria dos acidentes tem como causa falha humana”. Ele cita como exemplo a experiência da F1. “Até uma semana antes de todo GP, os pilotos permanecem treinando em simuladores. E estamos falando de pilotos profissionais da mais alta competência e capacidade do mundo”.

Flavio Tavares, do Instituto Parar, faz um alerta. “Precisamos determinar políticas para diminuição de acidentes e trabalhar com foco na meta zero. Os gestores de frotas têm papel fundamental nesse processo”, finaliza.