A 22ª edição da Conferência das Partes, COP, aconteceu em novembro, no Marrocos (cidade de Marrakesh) e foi marcada por muito positivismo e bons avanços. A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que reúne anualmente os países Parte em conferências mundiais. Suas decisões, coletivas e consensuais, só podem ser tomadas se forem aceitas unanimemente pelas Partes, sendo soberanas e valendo para todos os países signatários.

Em 2015, o resultado da COP que aconteceu na França foi o “Acordo de Paris” que estipulou metas ambiciosas para conter o avanço da temperatura mundial. Já a edição de 2016 começou com o anúncio do aceite de 100 países, dentre eles o Brasil, dos objetivos propostos pelo Acordo.  Para Amanda Kardosh, especialista em Sustentabilidade, “o Acordo de Paris surpreendeu positivamente a todos pela agilidade com que foi ratificado. Ninguém esperava iniciar a Conferência em Marrakesh com o acordo já em vigor, reforçado por mais de 100 países”, observa.

O Brasil foi destaque na Conferência, com uma delegação composta por mais de 270 membros, entre autoridades, representantes de empresas e sociedade civil. “Em todas as esferas o país se destacou com propostas apoiadas em exemplos concretos de ação em busca de uma economia de baixo carbono. O Brasil tem um papel de liderança pois é o único país em desenvolvimento com metas absolutas de redução de emissões, assumidas em seus compromissos. Além de ter sido o país que mais reduziu nas últimas décadas devido ao controle do desmatamento”, completa Amanda.

Na ocasião, o Brasil e outros 19 países, assinaram um compromisso com a Plataforma Biofuturo, que pretende alavancar a presença de biocombustíveis na matriz energética mundial. Na opinião de David Canassa, gerente geral de Sustentabilidade do Grupo Votorantim, e um dos presentes na Conferência, é uma boa oportunidade para nós, pois “novos mercados podem se descortinar para o Brasil, assim como é possível trazer novas tecnologias ao nosso país, que tem abundância em biomassa e pode prover, não somente a frota interna, como exportar biocombustíveis”. Segundo ele, o papel das empresas brasileiras deve aumentar com a Plataforma. “Muitas empresas estão engajadas, mas não são a maioria. A regulamentação da iNDC (Intended Nationally Determined Contributions), no quesito dos biocombustíveis, será uma alavanca importante no aumento desse engajamento e desenvolvimento de novas oportunidades de negócios”.

Canassa ainda destaca que com as novas metas propostas e compromissos assumidos pelo País, as empresas terão oportunidades de incorporar melhorias aos seus processos. “Temos diversas oportunidades, principalmente com as metas relacionadas a eficiência energética, biocombustíveis e melhoria na malha logística, com tecnologias que incorporam o conceito de baixo carbono. Novos negócios podem ser desenvolvidos e melhorias significativas incorporadas aos processos das empresas. Além disso, temos que valorizar o produto brasileiro perante as outras nações, pois nossa produção é muito menos intensiva em carbono”, finaliza.

Amanda alerta que o Brasil precisa olhar com cuidado dois segmentos-chave para atingir sua meta: Energia e Agropecuária. “Em destaque para o setor de energia, as empresas têm papel fundamental nesta tarefa. Palavras como eficiência energética e combustíveis renováveis devem estar na agenda de todas aquelas que almejam se destacar nos próximos anos”.

Um dos principais porta-vozes do setor empresarial, O CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – foi representado por sua presidente Marina Grossi, que falou exclusivamente com o blog Sou Mobilidade sobre a participação brasileira e os desafios para os próximos anos.

1 – Que balanço você faz sobre a COP22?

A COP22 foi muito importante para confirmar toda a ambição do Acordo de Paris. Diante de todo o receio que surgiu com a eleição de Donald Trump nos EUA, às vésperas da Conferência, a primeira grande mensagem que saiu de Marrakesh foi: nada pode parar a ação climática global. Além disso, vale ressaltar que a Conferência foi menos centrada em negociações e mais focada na ação e engajamento de todos os agentes que não são partes da Convenção, representados pelos governos dos diversos países, mas que são a essência da implementação dos compromissos de descarbonização das economias, como o setor empresarial. E isso é extremamente positivo. Portanto, a segunda grande mensagem desta COP foi afirmar a ação conjunta – de governos, setor produtivo, setor financeiro, além de institutos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e outros importantes agentes – como o caminho para alcançar o objetivo de longo prazo de manter o aquecimento global inferior a 2ºC, com esforços para conte-lo a 1,5ºC.

 2 – Você acha que houve avanços desde o Acordo de Paris, em 2015?

Sim. Foi interessante ver a continuação dessa poderosa colaboração de lideranças que deu origem ao Acordo de Paris debruçando-se agora sobre a sua implementação. As discussões giraram em torno das medidas necessárias para atrair os fluxos financeiros adequados à nova economia de baixo carbono, das novas estruturas de tecnologia, sobre o apoio aos países em desenvolvimento e aos mais vulneráveis às mudanças climáticas, por exemplo.

Um dos resultados da COP22 foi o compromisso dos países desenvolvidos de mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020. Sinalizações como estas incentivam as empresas a investirem com mais confiança na economia de baixo carbono, ainda que precisemos de muito mais. O documento Marrakesh Partnership indica que serão necessários investimentos de US$ 3 trilhões para se alcançar os objetivos do Acordo de Paris.

Por isso, marcaram a COP22 – e seguem a todo vapor – os debates sobre financiamento climático e mecanismos capazes de viabilizar a transição à nova economia, como a precificação de carbono. O CEBDS lançou um estudo sobre este tema durante o evento, em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente, lá em Marrakesh. Feito em parceria com o CDP e apoio do We Mean Business, o estudo ‘Precificação de carbono: o que o setor empresarial precisa saber para se posicionar‘ tem o objetivo de prover ao empresariado brasileiro toda a informação necessária sobre esses mecanismos, sua eficácia na redução de emissões, benefícios ao desenvolvimento socioeconômico, entre outras informações.

3 – Como um Conselho Empresarial, inserido neste contexto corporativo no Brasil, como você avalia a atuação das empresas brasileiras na questão do clima? Há uma preocupação real ou apenas discursos de marketing?

Como presidente do CEBDS, vejo um número significativo e crescente de empresas considerando o cenário futuro da economia de baixo carbono em seu planejamento estratégico. Elas estão cada vez mais atentas às mudanças que virão em decorrência dos desdobramentos do pacto climático, em especial dos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris. Cada vez mais esta é uma questão de sobrevivência dos negócios e já existem inúmeras ferramentas que mensuram os riscos colocados para o business.

Além disso, é preciso entender que o preço do carbono irá para outro patamar. A redução das emissões de gases de efeito estufa trazem oportunidades para o mundo de negócios e isso não é só uma tendência, mas um fator que implica na competitividade de empresas e países.

Durante a COP22 foram apresentados cases empresariais muito interessantes, como o da Ticket Log, que contou como ela conseguiu gerar 15 mil toneladas em créditos de carbono em 2015 com a troca de gasolina por etanol no abastecimento das frotas de suas empresas clientes.

Muitas empresas estão dispostas e empenhadas em trabalhar junto com o governo, organizações da sociedade civil e especialistas, para que a meta do Brasil se torne realidade, contribuindo efetivamente para a retomada do crescimento econômico em termos mais sustentáveis e para a pavimentação do caminho rumo à economia brasileira de baixo carbono.

Ainda encontramos algumas barreiras de financiamento, falta de estímulo à inovação e, até mesmo, falta de informação. É por isso que o CEBDS se dedica a articular o setor empresarial para construir soluções comuns. No momento, nós estamos trabalhando num estudo para subsidiar o planejamento estratégico da implementação dos compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris. Iremos entregá-lo ao Governo Federal no começo de 2017.

4 – Qual sua expectativa para o próximo ano? O que você acha que deve andar ou estagnar até a próxima COP?

O setor empresarial tem um importante papel de fortalecer a ação em rede e também de colocar as soluções tecnológicas inovadoras no centro da agenda de ação global para o clima. A expectativa é que soluções inovadoras e disruptivas sejam mais valorizadas do que nunca e que os negócios de baixo carbono ganhem muita visibilidade. Existem vários movimentos buscando redirecionar recursos existentes e canalizar novos para isso. Apesar da recessão, este é um mercado que vai crescer, devido aos investimentos externos que podem ser captados a juros baixos. A emissão de títulos verdes, que quadruplicou de 2013 a 2016 em todo o mundo, deverá ganhar um grande impulso no Brasil. Até meados deste ano, o país possuía o potencial de emitir US$ 2,4 bilhões em títulos verdes, entretanto, apenas 23% eram rotulados desta forma.