Foi-se o tempo em que apenas pilotos usavam simuladores para se habilitar e aprimorar conhecimentos antes de conduzirem aeronaves. Além de já estar presente na Fórmula 1 e na Stock Car, os simuladores são obrigatórios para a formação de motoristas em todo o Brasil e, há alguns anos, eles vêm sendo utilizados em grandes empresas de transporte. Nesse caminho sem volta, a tecnologia tem assumido o controle para dar mais agilidade e segurança à preparação de condutores.

Mas antes que se pense que o mesmo tipo de simulador pode ser aplicado a todas essas áreas, o ex-piloto Luciano Burti explica as diferenças entre o de autoescola e aquele que é utilizado para treinar motoristas em empresas de transporte. “O simulador de autoescola é eficiente, mas simples. Ele está mais ali para iniciar o novo motorista, que poderá trocar marchas, ver como funciona os comandos, acelerar e brecar. O outro é mais técnico, com conteúdo para evoluir o condutor”, explica ele.

Não por coincidência, Burti viu nesse mercado de formação de condutores uma grande oportunidade de compartilhar a sua experiência como piloto – lembrando que, na Fórmula 1, ele esteve atrás dos volantes de Jaguar e Prost entre 2000 e 2001; já na Stock Car, correu pelas equipes Action Power, Boettger Competições e Itaipava Racing Team entre 2005 e 2013. E foi exatamente em seu último ano na categoria brasileira de automobilismo que ele criou a Navig, especializada em treinamento para de motoristas de grandes empresas de carga e de passageiros.

De acordo com Burti, a Navig treina aproximadamente três mil motoristas profissionais por ano. Eles ficam aptos, por exemplo, para controlar o veículo em uma derrapagem mais brusca, para corrigir uma curva em que se entrou com excesso de velocidade e para evitar uma eminente colisão ou atropelamento. “Existe um grande nível de acidentes no Brasil. Além disso, o custo do transporte acaba sendo mais alto do que deveria, pois o motorista gasta mais combustível e desgasta mais o veículo, o que reflete em um preço final que é prejudicial para todos”, pondera.

Braspress, Fadel Transportes e BBM Transportes estão entre as empresas que fazem uso dos equipamentos e instrutores da Navig para treinar os motoristas responsáveis por levar suas cargas – itens que vão desde bebidas e madeira a produtos altamente inflamáveis, como gases. “A gente presta o serviço completo: fornece tanto o simulador como o instrutor, ficando na empresa por um período de um mês ou dois meses, dependendo do contrato”, esclarece Burti. Segundo ele, o ideal é fazer o treinamento e, a cada três ou seis meses, reciclar o motorista.

Entendendo a importância de treinamentos mais densos para motoristas, a Ticket Log, empresa brasileira de gestão de despesas corporativas, tem uma parceria com a Navig para oferecer treinamentos gratuitos para clientes. “A gente sempre bate na tecla de que cada pessoa é responsável por uma parcela da melhoria. Não adianta investir milhões em tecnologia e novos produtos se as pessoas que estão trafegando pelas rodovias como porta-vozes das marcas, levando estes produtos e com uma carga alta de responsabilidade, não estiverem devidamente treinadas e conscientes acerca do seu papel”, reforça Maximiliano Fernandes, diretor de Estratégia e Marketing da Ticket Log.

A Ticket Log ainda leva esses treinamentos para visitantes de feiras como a Fenatram, a maior vitrine de transporte rodoviário da América Latina. A ideia é estimular esses alunos a atingirem bons resultados de segurança e economia de combustível.

Muito mais do que um videogame

Apenas para se ter uma ideia, a Navig utiliza equipamentos importados que chegam a custar R$ 1,2 milhão. Autoescolas e a Stock Car, por exemplo, trabalham com simuladores nacionais distintos – isto é, cada um com a sua finalidade -, mas em ambos os casos é possível encontrá-los por preços na faixa dos R$ 50 mil. Essas cifras parecem altas, mas sequer se comparam às da Fórmula 1, onde equipes como Ferrari e Mercedes pagam até 10 milhões de dólares em simuladores de última geração.

Muito mais do que um jogo que custa caro, o simulador desenvolvido para condutores de frota traz as dimensões exatas de um carro, caminhão ou ônibus, além de características como peso, centro de gravidade e torque da potência. “Por mais que expliquemos, não é fácil fazê-los entender a diferença entre um simulador e um videogame. Eles só percebem na hora que sentam na máquina, dirigem e entendem que toda a reação que existe ali é muito próxima de um veículo”, conta Burti.

Se não bastasse ajudar empresas a diminuírem gastos com manutenção da frota e a reduzirem acidentes, gerando também uma economia de combustível de até 12%, os simuladores da Navig já foram requisitados até mesmo por sindicatos patronais para ações específicas em São Paulo, Campinas e em outros pontos da Grande São Paulo. Isso mostra que as campanhas de conscientização de motoristas e pedestres também têm muito a ganhar com o auxílio desse tipo de tecnologia. Está aí uma boa dica para órgãos públicos de trânsito como Detran e Denatran.