Conversamos com alguns clientes e importantes nomes da gestão de frotas para saber, dentre outras coisas, quais as lições aprendidas pelas empresas em 2016 e as expectativas para o segmento em 2017.

Mariana Costa, Coordenadora de Operações Comerciais – Singenta

“Lidamos com um cenário peculiar. Não estamos nas grandes capitais, nossas equipes estão remotas, espalhadas por cidades do interior brasileiro, onde as condições de deslocamento são mais precárias. Por isso, nosso principal foco é segurança. Precisamos, numa escala crescente, avaliar e qualificar nossa frota. Muitos veículos que aos nossos olhos parecem seguros podem não estar num bom ranking de crash test. Precisamos fazer esse push com as montadoras. Fazer com que os veículos sejam submetidos a testes cada vez mais rigorosos para validações e chancelas importantes. Temos que acompanhar o que há de melhor em segurança. Embora o Brasil tenha um cenário econômico e cultural diferente de países mais avançados, é possível estar alinhado com as melhores tendências. É possível ver o que o mundo está fazendo de melhor e adaptar para nossa realidade. Em janeiro, lançaremos um projeto a partir de telemetria, que trará base punitiva e base de reconhecimento para os usuários. Precisamos ter as melhores conduções e os melhores comportamentos como exemplos a serem seguidos.”

Carmem Tatibana, Coordenadora de Input Operation – Nielsen

“Um dos grandes temas em mobilidade é o compartilhamento. Grandes cidades, com territórios que exigem deslocamentos extensos e com problemas de transporte público, ganham muito com o compartilhamento. Para as empresas, os resultados são medidos em eficiência e redução de custos. Implantamos uma política de frotas focada nessa questão. No passado, utilizámos um carro por pesquisador. Hoje, cada veículo transporta quatro pesquisadores. O deslocamento de profissionais executivos também mudou – em vez de veículos da empresa, esses profissionais utilizam serviço de táxi, que em 2017 deverá ser estendido aos profissionais de nível gerencial. O compartilhamento veio para ficar e as empresas têm muito a contribuir para essa boa mudança de comportamento”.

Laurie Ellen Vidói, Analista de Leasing – Banco Volkswagen

“Inovação é a palavra-chave para os próximos anos. Estamos vivendo um tempo totalmente novo, de transformações. Hoje, dentro dessa nova tendência, temos como principal foco oferecer produtos que possam dar mobilidade às pessoas. É uma nova forma de se posicionar no mercado. Serão novos produtos, novas soluções, tanto em gestão e locação de frotas quanto em sistemas de leasing. E isso não está só relacionado à crise econômica e à diminuição da produção de veículos. Tem a ver com mudança de comportamento. O desejo de posse mudou. Ter um carro novo a cada dois anos já não é mais tão significativo para as novas gerações. Dentro desse novo cenário, buscamos combinar nossa expertise como montadora às soluções como instituição financeira. Por isso, criamos produtos que estejam totalmente ligados aos avanços da tecnologia. Os carros serão autônomos; os celulares darão comandos à distância; os veículos serão compartilhados tanto na compra quanto no uso, por grupos e períodos determinados; os sistemas serão inteligentes e postos de trabalho serão extintos. E tudo isso ligado diretamente à mobilidade. Temos que nos preparar, temos que nos adequar. São as grandes pautas para o setor em 2017. ”

Micael Duarte, Gestor de Frotas da IBM

“O que cabe a mim, como gestor de frotas e de vidas, é prover ferramentas de trabalho mais seguras para que os condutores façam a parte deles. Mesmo que sejam prudentes, a ferramenta utilizada deve ser a mais segura possível.  Hoje, depois de muito trabalho dentro da empresa, nossa frota é formada por veículos com certificação cinco estrelas – qualificação máxima em segurança a partir de crash tests aferidos pela LatinNCap, empresa responsável pela avaliação dos carros fabricados e vendidos na América Latina. Tive uma experiência pessoal com essa questão. Há dez anos, quando trabalhava em campo, sofri um acidente de carro e fui parar embaixo de um caminhão. Tenho a certeza de que estou vivo e bem hoje por que eu estava num veículo avaliado com quatro estrelas. Aqui, cabem duas discussões. Primeira: segurança. Dentro de cada veículo da empresa temos não somente um colaborador e sim uma família inteira. Segunda: redução de custos. O veículo concorrente tinha custo menor, mas a análise do custo total mostrou que ganharíamos em economia com manutenção e combustível. Resultado: redução de 30% nos custos da frota com mais segurança para os condutores. A escolha por um carro seguro mudou a gestão de frotas na IBM. Creio que essa seja a discussão mais importante hoje para o setor. ”

Luciano Burti, ex-piloto de Fórmula 1 e diretor da Navig.

“A experiência da F1 nos levou a criar a Navig, um negócio totalmente focado no treinamento do condutor com base em simuladores. Esse tipo de treinamento fez total diferença no mundo da aviação, quando surgiram os primeiros simuladores de voo, em 1910. O objetivo do trabalho com o simulador é oferecer treinamento para segurança. Você vai encontrar todos os pilotos de F1, às vésperas de todas as provas, treinando em simuladores. Quanto mais a gente treina, melhor a gente fica. Por isso, se você quer reduzir o custo operacional de transporte, você tem que focar no condutor. É necessário prepará-lo, manter treinamento e reciclagem constantes. A grande maioria dos acidentes fatais no trânsito tem como causa a falha humana. Então, precisamos investir nos condutores e em tecnologia para segurança dessas vidas por que ainda que você seja um especialista em direção, você está sujeito a sofrer um acidente. Na F1, descobri que os acidentes acontecem com a gente também. Bati no muro a 270 km/h e escapei com vida por que todos os equipamentos de segurança estavam em ordem. Se o acidente fatal do Senna não tivesse acontecido, em 1994, talvez muitos pilotos, eu inclusive, não estariam aqui. De lá para cá, muita coisa mudou, houve um avanço incrível em tecnologia com foco na segurança dos pilotos. Temos que aprender com essas lições e ter em mente que sempre é possível e necessário melhorar e evoluir quando tratamos de segurança. ”

Aline Gellacic, Coordenadora de Serviços e Venda, Apsen Farmacêutica.

“Há dois anos estamos trabalhando na implantação de processos de segurança na gestão de nossa frota. Os números relacionados a multas e sinistros eram bastante altos. Desenvolvemos ações e passamos a adotar sistemas de informação para o cruzamento de dados e produção de relatórios gerenciais. Implantamos campanhas internas, produzimos teasers semanais, sempre com foco na adoção de uma cultura de segurança. Implantamos uma política de gestão de frotas bem clara, com sistemas de premiação para quem não acumula multas ou sinistros. Passamos a oferecer a opção de compra do veículo que o colaborador utiliza com o mesmo objetivo – diminuir o número de sinistros e multas. Hoje, temos 470 veículos em nossa frota e o resultado de todo esse investimento foi a queda de 70% no número de sinistros nesse último biênio. As mudanças vieram para ficar e impactam positivamente a vida de todos, dentro e fora do ambiente de trabalho”.

Harlen Braga, Gestor de Frota, Emive Segurança Eletrônica

“Creio que todo trabalho realizado tenha como principal objetivo salvar vidas. Precisamos mudar a cultura sobre segurança para que as pessoas entendam que todas são responsáveis pela mobilidade que queremos para nossas cidades, para nossas famílias. Na Emive, adotamos o sistema de telemetria, implantamos uma política definida e eliminamos a ociosidade da frota, que foi reduzida em 30%. Das mais 300 multas mensais, baixamos para 25/mês, em média, e continuamos a reduzir esse número. O mesmo acontece com sinistros – de 22/mês passamos a 2,5/mês com meta de reduzir a zero os acidentes. Todos ganham: a empresa, os colaboradores, a cidade, as famílias. Ainda há muito por fazer. Esse é o caminho. ”

André Leitão, Gerente de Segurança Patrimonial e Frotas, Aché Laboratórios

“Precisamos disseminar o uso do veículo compartilhado e focar em planejamento e otimização dos recursos. O objetivo é gerir uma frota produtiva, com menor índice possível de sinistros e multas. Temos cerca de 2.500 veículos e adotamos procedimentos que tornaram possível essa evolução, com reconhecimento da alta direção da companhia. Adotamos o uso do Uber, implantamos vans para transporte de grupos, desenvolvemos diferentes ações internas para conscientização dos condutores, sempre reunindo as equipes de segurança do trabalho com o pessoal de projetos operacionais. A maior barreira para implantar uma cultura de segurança ainda é a comportamental. Mas, com persistência e seriedade, podemos obter resultados significativos, como o que estamos colhendo na companhia. ”

Elfio de Carvalho Neto, Gerente Nacional de Transportes/EHS, Souza Cruz.

“Temos um mundo infinitamente novo à frente. O futuro já chegou e temos que nos inserir nessa nova realidade, altamente inteligente e funcional. Todas as novidades são bem-vindas, necessárias e fundamentais para a evolução em qualidade de vida, produtividade, performance operacional e redução de custos. Porém, soluções como veículos híbridos, elétricos, frotas inteligentes, transporte compartilhado, diversificação de modais passam por questões estruturais, das quais ainda temos muito o que evoluir no Brasil. Acredito que a pauta mais importante sobre mobilidade hoje deva abranger essas questões, que estão relacionadas diretamente aos poderes públicos. Vou dar como exemplo a cidade do Rio de Janeiro. Podemos ter os melhores projetos de transporte compartilhado, mas temos problemas de acesso em grande parte da região metropolitana, tanto viários como de segurança. Precisamos de infraestrutura eficiente de serviços públicos para que as mais modernas soluções em modalidade sejam realmente implantadas com sucesso. É evidente que todo e qualquer projeto ou programa sempre deverá ser adaptado a cada contexto, porém, em um passo anterior a esse, temos questões estruturais que precisam ser resolvidas para que possamos nos apropriar e desfrutar das melhores práticas em mobilidade. ”

Alexandre Righetti, Departamento de Marketing, Itaú Seguro Auto Frota

Creio que a grande discussão sobre mobilidade seja a integração dos transportes. As ciclovias representam um grande ganho, mas é necessário integrá-las aos demais meios: metrô, trem urbano e ônibus. As redes precisam “conversar” entre si – municipais, intermunicipais, estaduais, federais. Temos linhas de ônibus e de metrô que começam e terminam sem proximidade nenhuma com ciclovias. Precisamos de planejamento e integração de todos os sistemas das regiões metropolitanas com todos os sistemas de ciclovias. Em São Paulo, é necessário integrar de fato regiões como o ABC, Guarulhos, Osasco, etc. Se toda essa malha for realmente integrada, teremos mais opções de transporte, menos tempo de deslocamento, otimização dos trajetos, e desafogaremos grandes “gargalos” da cidade como as marginais. Esse tema é fundamental”.