O trânsito sempre foi motivo de muito desconforto, principalmente para moradores de grandes cidades. Deslocar-se está cada dia mais complicado, estressante e demorado. A mobilidade nas grandes cidades tomou proporções inimagináveis e já figura em discussões ao lado de temas como saúde e educação, com status de “primordial”. O tema ganhou tanto corpo que foi plataforma política de praticamente todos os candidatos nas últimas eleições municipais.

Para falar um pouco mais sobre a mobilidade nas grandes cidades, o blog conversou com Ana Nassar, diretora  de Programa do ITDP – Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (em inglês Institute for Transportation and Development Policy), uma entidade sem fins lucrativos que promove o transporte sustentável e equitativo no mundo, concentrando esforços para reduzir as emissões de carbono, poluição atmosférica, ocorrências de trânsito e a desigualdade social.

  1. A mobilidade foi tema de praticamente todas as plataformas dos candidatos às prefeituras pelo País. Como você analisa a situação da fluidez do trânsito no Brasil?

É preciso diferenciar a fluidez do trânsito de veículos, da fluidez do trânsito de pessoas. Nesse sentido, a mera inclusão da mobilidade urbana nas plataformas dos candidatos, não significa que questões importantes como, estratégias para desestímulo ao uso do automóvel e medidas para redução do número de mortes no trânsito, como os limites de velocidade ,foram efetivamente discutidas e incorporadas. No Brasil, as cidades precisam avançar no planejamento e implementação de políticas públicas para favorecer o uso do transporte público, da bicicleta e os deslocamentos a pé. Os incentivos e investimentos para esses meios de transporte ainda são precários se comparados aos dedicados à infraestrutura para o automóvel.

  1. Em grandes capitais, como São Paulo, diante de um cenário complicado em termos de quantidade de veículos, você acha que há solução para a questão da mobilidade?

Diversas cidades ao redor do mundo estão conseguindo melhorias na mobilidade urbana por meio de estratégias para promoção do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável, que estimula uma ocupação compacta e com uso misto do solo, com distâncias curtas a pé e proximidade à estações de transporte de média e alta capacidade (trem, metrô, BRT – Bus Rapid Transit –  e VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – ). Mais carros levam a mais congestionamentos, poluição, consumo de combustível e emissões de gases de efeito estufa. As cidades que no passado foram adaptadas e desenhadas para acomodar as viagens de automóvel precisam lançar um olhar para futuro, que exige prioridade ao transporte público, ao uso da bicicleta como meio de transporte e à melhoria das condições para deslocamentos a pé.

  1.   Erroneamente, tendemos a culpar apenas o Governo ou a falta da infraestrutura adequada pelo problema do trânsito. Como você avalia a postura pessoal dos condutores no trânsito? É possível ser um motorista melhor e ter impacto positivo na fluidez?

No Brasil, é mais provável morrer em uma colisão no trânsito do que em decorrência de um câncer ou mesmo por homicídio. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil está na quarta posição no ranking dos países que mais matam no trânsito. Mesmo assim é comum alguém dizer que no Brasil existe a indústria da multa, mas o que de fato existe é a indústria da infração. Em 2014, a Prefeitura de Nova Iorque criou o programa Vision Zero, que lançou uma meta ambiciosa para zerar o número de mortes no trânsito até 2024. Para isso, reduziu o limite de velocidade de vias e aumentou a fiscalização, o que resultou, no primeiro ano do programa, uma queda de 15% no número de mortes. Muito mais do que apontar a postura pessoal dos condutores como o principal problema, temos que destacar a importância dos governos avançarem rapidamente na implementação de políticas públicas que garantam o deslocamento das pessoas de forma rápida, segura e confortável, com prioridade para os modos coletivos e ativos.

  1.    Quais comportamentos o cidadão pode adotar para mudanças imediatas na mobilidade?

Reduzir os limites de velocidade é uma tendência contemporânea em cidades que priorizam o direito à vida. Todos os dias as ocorrências de trânsito, como colisões e atropelamentos, fazem novas vítimas e essa questão exige ser tratada com urgência e prioridade. Menos velocidade, mais vidas salvas, com a redução drástica no número de colisões. Além disso, é interessante notar que a redução dos limites de velocidade também contribui numa melhora na velocidade média das vias que passam a sofrer menos com os congestionamentos.

  1.    Analisando o Brasil, você pode citar alguns projetos ou cidades que considera modelo neste tema (mobilidade)? Se não for modelo, que esteja no caminho certo ao menos.

Em São Paulo já existem várias regiões com velocidade limitada, chamadas de Área 40 e outras que tiveram suas velocidades reduzidas, como a Marginal Tietê. Após a redução dos limites de velocidade, um estudo da CET apontou que, na comparação com dados de 2014, as mortes de pedestres caíram 24,5% e de ciclistas 34%. Em Curitiba, a redução de velocidade na chamada Área Calma começou a vigorar em novembro de 2015 e alguns bairros no Rio de Janeiro, como Copacabana, estabeleceram diversas Zonas 30 – áreas seguras para o uso da bicicleta e circulação de pedestres, criadas através de restrições amigáveis ao uso do carro particular e sistemas de ruas com velocidade máxima de 30km/h.

  1.    Se estivesse em suas mãos, que atitudes tomaria para a transformação da mobilidade no Brasil?

A mobilidade é muito mais do que o deslocamento das pessoas de um ponto A até um ponto B. Tem impacto direto no acesso das pessoas às oportunidades de emprego, educação, saúde e outros serviços básicos disponíveis no território urbano. Também impacta diretamente a qualidade de vida e bem-estar das pessoas, determinando quanto tempo é gasto em deslocamentos diários, tempo que de outra forma poderia ser gasto com lazer, estudos ou trabalho, por exemplo. Desde 2012, o Brasil conta com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, que estabelece diretrizes para o planejamento municipal do setor, deixando clara a prioridade para transportes coletivos e ativos. Precisamos tirar as diretrizes do papel e avançar efetivamente na implementação desta política, em âmbito federal, metropolitano e municipal. Com o início do mandato das novas gestões municipais a partir de 2017, será fundamental que os cidadãos acompanhem, monitorem e cobrem mudanças localmente.